Caros bolonistas, aproxima-se o fim da Copa e aproveito a oportunidade para fazer uma breve avaliação da experiência
in loco. Antes de mais nada, já deixo registrado que em 2022 estarei lá
até a final, para garantir o Brasil campeão (voltei na quinta-feira passada e posso dizer que não vi o Brasil perder nenhum jogo em solo russo).
The good
- A Copa e os voluntários: a organização do evento foi impecável, como era de se esperar. Todas as cidades estavam muito bem sinalizadas, com placas em inglês e russo. Havia muita segurança (talvez até demais em alguns pontos críticos), e ficamos tranquilos o tempo todo em que estivemos por lá. Havia postos de atendimento com voluntários que falavam inglês em pontos estratégicos de todas as cidades sede. Em dia de jogo, além do passe livre gratuito no transporte público, os voluntários orientavam os visitantes também em todas as estações, acessos e caminhos que levavam a algum ponto relevante. Nenhum voluntário vai ler isso, mas fica aqui o nosso большое спасибо a todos eles.
- A experiência internacional na Copa: passar um mês em função de um evento esportivo parece loucura, e muitas vezes até sentíamos que era, mas foi só voltar que a saudade bateu forte: foi difícil não gritar VAI, BRASIL! nas ruas na manhã de sexta-feira. O clima de Copa, gente do mundo todo reunida no mesmo lugar pelo mesmo motivo, a alegria dos locais tirando foto com os turistas e celebrando o evento - tudo que acontece além do estádio é incrível e impossível de ser reproduzido fora do país sede.
- Os russos: ô povinho sofrido! Apesar da fama de secos, mau humorados e diretos, os russos foram muito receptivos aos visitantes, e abraçaram o evento com muita alegria e hospitalidade. As ruas estavam tomadas de torcedores bêbados e muito felizes depois da vitória da seleção anfitriã contra a Espanha, uma festa que, segundo alguns relatos, não se via desde 1945.
- O país: a Rússia tem um monte de problemas, e todo mundo que acompanha as notícias sabe disso. Mas o grande Brasil siberiano é um país incrível, com cidades belíssimas, arquitetura única, povo acolhedor e uma história fascinante. Vale a visita (no verão; já fui no outono e é deprimente).
- Seleções, sem critério nem ranking: França, Bélgica, Brasil, Colômbia com James, Japão, Coreia do Sul, Senegal, Uruguai, Suíça, Rússia, Irã, Islândia e Panamá (essas duas, café com leite)
The bad
- A comida: MEU DEUS DO CÉU, QUE COMIDA RUIM TEM A RÚSSIA! Quando o prato típico de um país é uma sopa, prepare-se porque o que vem depois é só pedreira. Exageros à parte, a comida russa não é ruim, apenas muito sem graça. Nenhum prato local encantou - o strogonoff russo chegou quase lá e seria fantástico caso fosse servido com arroz e batata palha, em vez de purê de batata e aspargos. A culinária da Geórgia se destaca, com seus temperos fortes e marcantes, mas falta o tchan. A carne de vaca é muito cara (uma peça de carne de 180g não sai por menos de R$45). As alternativas eram sempre fast food (bendita glasnost) ou comida genérica dos bares, nada impressionante. Em Moscou, descobrimos um restaurante italiano (Pasta e Basta, caso alguém passe por lá) tão gostoso e autêntico que voltamos 3x em 6 dias, tão crítica era a situação.
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| Um autêntico strogonoff russo |
- A bebida: talvez por passarem 8 meses do ano castigados pelo frio intenso, os russos aproveitam o verão para curtir o calor. Isso inclui os ambientes (ar condicionado para que?) e todas as bebidas, incluindo água, cerveja, refrigerante, suco... Tudo é servido em temperatura ambiente, ou próxima disso. Inúmeras vezes recebemos cerveja que parecia ter saído do armazém, não da geladeira. Até dá para pedir gelo, mas a solicitação é sempre recebida com um pouco de estranhamento. Foram muitos litros de cerveja quente para dar o combustível da Copa.
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| Sem contar os sabores esdrúxulos... |
- A comunicacão: acho que passamos por uma experiência similar à que os estrangeiros passaram quando vieram ao Brasil em 2014. Os voluntários e os mais jovens até conseguem se comunicar bem mas, além desse grupo, quase ninguém fala inglês - inclusive em restaurantes e hospedarias. O metrô ganhou transcrição romana do nome das estações apenas na véspera do evento. Cirílico trança o cérebro de quem não conhece o alfabeto, a vontade ler ресторан como 'pectopá' e não 'restarán' é muito forte para os desavisados. Os seis meses de aulas de russo antes da viagem foram providenciais em vários momentos, e eu recomendo fortemente estudar ao menos o alfabeto cirílico antes de visitar o país.
- A logística: sim, a Copa foi apenas na Rússia ocidental. Só que apenas a Rússia ocidental já é maior do que a Índia, e seria o sétimo maior país do mundo em território. Entre trens, aviões e vans, nós que seguimos o Brasil rodamos pouco mais de 7.600km. Para o último jogo, em Samara, encaramos 20h de trem, chegamos à cidade 5h antes do início do jogo, partimos direto para o aeroporto e chegamos em Moscou à 1h da manhã do dia seguinte. Viajar tanto cansou bastante, estamos animados com a Copa no Qatar e seus 11.000km2, menos do que tem o Sergipe.
- Seleções, sem critério nem ranking: Espanha, Marrocos, Croácia, Suécia, Dinamarca, Nigéria, México, Costa Rica, Austrália, Tunísia, Peru
The ugly
- A chave de lá das eliminatórias: a Rússia não está na final por um pênalti muito mal batido do Smolov. A Inglaterra evitou a humilhação de perder a final e caiu para uma Croácia que estudou muito bem Portugal da Eurocopa de 2016. Não precisa falar mais nada.
- O comportamento de alguns fãs: tem babaca no mundo todo, e não foram só os brasileiros que se comportaram mal em alguns momentos. Os torcedores da Sérvia estavam belicosos. Os torcedores do México estavam se achando muito e passando do ponto no friendly banter antes do jogo. O 'Movimento Verde e Amarelo' roubou nossos lugares no jogo contra o México e se comportou como a Leões da Fabulosa no Canindé, desobedecendo todas as regras e instruções dos stewards do estádio. Os torcedores da Argentina eram facilmente identificados por seus cabelos que mais lembravam perucas do Hermes e Renato - um afronte estético.
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| Um grupo de hinchas na balada |
- A nossa roupa: fez sucesso entre os fãs, mas aquela roupa era horrorosa, quente, desconfortável e, depois de quatro jogos, muito fedida. Respondendo à Estefânia, a máscara sai - só assim para beber, comer, respirar, ver, assistir aos jogos.
- Seleções, sem critério nem ranking: Portugal, Inglaterra, Alemanha, Colômbia sem James, Egito, Arábia Saudita, Argentina, Polônia, Sérvia
Enfim, termina domingo a Copa do Mundo e já estamos com saudades. Voltaremos em 2022 com mais cobertura, mais perrengue e mais bolão. Esse ano, inclusive, o bolão foi nível hard - parabéns aos gênios que ainda têm chance de ganhar.
Já que estou eliminado, segue meu palpite para a final: Croácia 1 (gol do Vida aos 87') x 17 França (gols inclusive do Zidane, do Macron e do Deschamps, este último de cabeça em cobrança de lateral). Meu coração quer Croácia campeã, mas a gente sabe que isso não vai acontecer, não é mesmo?
Obrigado a todos que acompanharam, e ao Bernardo e ao Madeira por organizarem o bolão e pelo espaço no blog. Em 2022 tem mais, o Qatar é logo ali! Até breve!
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| Valeu! |